domingo, 23 de janeiro de 2011

História Serial e História Quantitativa

A História Serial está entre algumas das modalidades historiográficas mais emblemáticas do último século, uma vez que contribuiu para a constituição de um influente paradigma que praticamente hegemoniza todo um setor da historiografia francesa entre os anos 1940 e 1970. Quando surgiu, a História Serial chegou a ser vista como uma revolução nas relações do historiador com as suas fontes, e alguns chegaram mesmo a pensar que este tipo de historiografia substituiria de todo o antigo fazer histórico tradicional. Ao invés das fontes habituais que eram sempre tomadas para uma abordagem qualitativa, a chamada História Serial introduziu nas proximidades dos meados do século XX uma perspectiva inteiramente nova: tratava-se de constituir “séries” de fontes e de abordá-las de acordo com técnicas igualmente inéditas.


Se pensarmos em termos de constituição de um recorte de pesquisa pelo historiador, podemos dizer que, com a História Serial, recorta-se o objeto não propriamente em função de uma determinada realidade histórico-social concernente a uma delimitação espaço-temporal preestabelecida, mas mais precisamente em função de uma determinada série de fontes ou de materiais que é constituída precisamente pelo historiador. Ainda que se possa pensar em outras possibilidades de utilização historiográfica da serialização, este foi o modelo que começou a emergir a partir de meados do século XX, tendo como ponto de partida os trabalhos pioneiros de Ernst Labrousse sobre "Os preços no Antigo Regime", e como marco mais significativo a célebre obra de Pierre Chaunu sobre 'Sevilha e o Atlântico' (1954).

É importante distinguir a História Serial de uma outra modalidade que, por vezes, apresenta-sa como sua co-irmã, mas que se refere a outro critério: a História Quantitativa. História Serial e História Quantitativa podem aparecer conectadas, mas é possível perfeitamente pensar trabalhos de História Serial sem a preocupação quantitativa propriamente dita, e, de todo modo, é preciso distinguir bem uma modalidade da outra. Para entendermos bem esta diferença, vamos, antes de mais nada, refletir sobre o que é exatamente uma "série" na historiografia.

Na chamada ‘História Serial’ o historiador estabelece uma “série”, e é esta série que particularmente o interessa. François Furet, em seu 'Atelier do Historiador' (1982), define a História Serial em termos da constituição do fato histórico em séries homogêneas e comparáveis. Dito de outra forma, trata-se de “serializar” o fato histórico, para medi-lo em sua repetição e variação através de um período que muitas vezes é o da longa duração. Na verdade a duração longa, ou pelo menos a média duração (relativa às conjunturas), foram as que predominaram nos primeiros trabalhos de História Serial – muito voltados, nesta primeira época, para a História Econômica e para a História Demográfica, ao mesmo tempo que combinados com a perspectiva de uma História Quantitativa. Todavia, pode-se proceder a uma serialização relacionada também a um período relativamente curto, desde que o conjunto documental estabelecido seja suficientemente denso.

De certo modo, as possibilidades de tratamento serial permitiram uma sensível ampliação de alternativas em termos de recorte historiográfico, uma vez que as séries singulares a serem construídas por cada historiador já não se enquadrariam nas periodizações tradicionalmente preestabelecidas. Criar uma série é, em certa medida, recriar o tempo – assumi-lo como ‘tempo construído’, e não como ‘tempo vivido’ a ser reconstituído.

Por outro lado, optar pelo caminho serial pressupõe necessariamente escolher ou construir um problema condutor muito específico – problema este que é fator fundamental na constituição da própria série. A História Serial veio assim diretamente ao encontro de uma História Problema, como as demais modalidades historiográficas que passaram a predominar na historiografia profissional do século XX.

Com relação a este aspecto, e em se tratando de uma série documental homogênea, não teria sentido examinar esta série evasivamente, de modo meramente impressionista. A História Serial constitui-se necessariamente de uma leitura da realidade social através da série que foi construída pelo historiador em função de um certo problema (sendoque muitas vezes a própria série chega a se confundir com o problema,com ele entremear-se na prática historiográfica). Não se trata, de todo modo, de optar inicialmente pelo estudo de uma determinada sociedade para só depois buscar as fontes que permitirão este estudo ou o acesso a esta sociedade, como poderia se dar em outros caminhos historiográficos. Pode-se dizer que, nesta modalidade historiográfica, o problema e as fontes chegam juntos: fazem parte um do outro. O que o historiador serial estuda é precisamente a série: este é basicamente o seu recorte e a essência de seu objeto. E pode-se compreender como uma “série” tanto os fatos repetitivos que permitem ser avaliados comparativamente, como uma determinada documentação homogênea.

No primeiro sentido, François Furet fala em termos de uma serialização de fatos históricos que trazem entre si um padrão de repetitividade (fatos históricos que serão obviamente de um novo tipo, não mais se reduzindo aos acontecimentos políticos). No segundo sentido, ao examinar os novos paradigmas historiográficos surgidos no século XX, Michel Foucault assinala que “a história serial define seu objeto a partir de um conjunto de documentos dos quais ela dispõe” . Isto abre naturalmente um grande leque de novas possibilidades:


“Assim, talvez pela primeira vez, há a possibilidade de analisar como objeto um conjunto de materiais que foram depositados no decorrer dos tempos sob a forma de signos, de traços, de instituições, de práticas, de obras, etc ...” (FURET, 1982]


Portanto, em que pese que fontes administrativas, estatísticas, testamentárias, policiais e cartoriais se prestem admiravelmente a um trabalho de História Serial, é possível também constituir em série documentação literária, iconográfica, ou mesmo práticas perceptíveis a partir de fontes orais. É mesmo possível constituir séries às quais não se pretenda necessariamente aplicar um tratamento quantitativo propriamente dito, mas sim uma abordagem mais tendente ao qualitativo – interessada ainda em perceber tendências, repetições, variações, padrões recorrentes e em discutir o documento integrado em uma série mais ampla, mas sem tomar como abordagem principal a referência numérica.

Uma das obras de Gilberto Freyre, por exemplo, constitui como série documental para o estudo da Escravidão no Nordeste os anúncios presentes em jornais da época – onde os grandes senhores anunciavam a fuga de escravos fornecendo descrições detalhadas dos mesmos, inclusive sinais corporais que falavam eloqüentemente das práticas inerentes à dominação escravocrata . Não é propriamente o Escravo que é o seu objeto, mas “o Escravo nos anúncios de jornal”, como o próprio título indica. Ou seja, busca-se recuperar um discurso sobre o Escravo a partir de uma série que coincide com os periódicos examinados pelo autor; procura-se dentro desta série perceber uma recorrência de padrões de representação, mas também as singularidades e variações, e por trás destes padrões de representação os padrões de relações sociais que os geraram.

Conforme logo veremos, a série pode se prestar à percepção do quantitativo, mas também pode se prestarào entendimento das mudanças qualitativas. Mas antes de adentrarmos este ponto, podemos desde já reconhecer que, com o advento da História Serial em meados do século XX, os caminhos historiográficos marcados pela ultrapassagem do documento isolado passaram a se integrar definitivamente ao repertório de possibilidades disponíveis para o historiador. O recorte documental mostra-se aqui como uma outra possibilidade para o historiador delimitar o seu tema. Definido este recorte, surgirá então uma delimitação temporal específica, que será válida para aquele recorte problemático e documental na sua singularidade, e não para outros. Dito de outra forma, em alguns destes casos é uma documentação que impõe um recorte de tempo, a partir dos seus próprios limites e das aberturas metodológicas que ela oferece.

Será bastante buscar uma exemplificação final com o próprio estudo pioneiro de Pierre Chaunu. O recorte de sua tese, estabelecido entre 1504 e 1650, é criado a partir de uma primeira data em que a documentação da ‘Casa de Contratação de Sevilha’ lhe permite uma construção estatística, e extingue-se no marco de uma segunda data quando a documentação já não permite uma avaliação quantitativa dos fatos (precisamente uma data relativa ao momento em que o comércio atlântico deixa de trazer a marca do predomínio espanhol e em que, consequentemente, a documentação de Sevilha se dilui como definidora de uma totalidade atlântica). O recorte documental problematizado, enfim, organizou o tempo do historiador.


...


Nesta parte final, gostaria de discorrer sobre uma confusão que constantemente assalta o historiador em formação quando este é apresentado às diversas modalidades historiográficas. Refiro-me precisamente à diferença entre História Serial e História Quantitativa. Embora sejam comuns as já mencionadas possibilidades de que as duas abordagens se superponham para formar uma História Serial Quantitativa, as duas modalidades também podem andar separadas, e existem diferenças a serem notadas entre estes dois campos históricos.

A História Serial refere-se ao uso de um determinado tipo de fontes (homogêneas, do mesmo tipo, referentes a um período coerente com o problema a ser examinado), e que permitam uma determinada forma de tratamento (a serialização de dados, a identificação de elementos ou ocorrências comuns que permitam a identificação de um padrão e, na contrapartida, uma atenção às diferenças, às vezes graduais, para se medir variações). Já a História Quantitativa deve ser definida através de um outro critério: o seu campo de observação. O que a História Quantitativa pretende observar da realidade está atravessado pela noção do “número”, da “quantidade”, de valores a serem medidos. As técnicas a serem utilizadas pela abordagem quantitativa serão estatísticas, ou basea-das na síntese de dados através de gráficos diversos e de curvas de variação a serem observadas de acordo com eixos de abscissas e coordenadas. Algumas análises quantitativas mais sofisticadas poderão utilizar logarítimos, recursos matemáticos mais avançados como integrais e derivadas. O computador será neste caso de uma ajuda inestimável. Com relação ao tipo de fontes para a efetivação de uma pesquisa com base na História Quantitativa, estas serão fatalmente “fontes seriais”, e aqui está o nó do esclarecimento.

A quantificação pressupõe a serialização (se não de fontes, pelo menos de dados). O inverso é que não ocorre. Posso trabalhar com séries de fontes sem estar necessariamente interessado no número. Estarei interessado em verificar recorrências, mas não necessariamente quantidades. Posso, por exemplo, verificar padrões iconográficos. A quantidade de documentos em que se repete um determinado padrão, ou a sua recorrência com variações mínimas, isto pode até ser contabilizado - mas como um recurso paralelo. E não necessariamente. A chave para definir uma prática como História Serial é portanto a busca de padrões recorrentes e variações ao longo de uma série de fontes ou materiais homogêneos. Mas não necessariamente a quantidade, ou pelo menos isto não é o principal. Assim, para dar um último exemplo, posso serializar notícias de jornais durante um período mais ou menos longo para verificar a repetição de determinado tipo de anúncios, ou a sua gradual variação ao longo do tempo, ou mesmo as variações bruscas que serão indicativas de algum acontecimento que produziu a transformação. A “série” é o que canaliza a atenção do historiador na modalidade da História Serial; o “número” ou a medida é o que canaliza a atenção do historiador no caso da História Quantitativa. Se as duas coisas constituem o ponto nodal da abordahem historiográfica empregada, temos aí uma conexão entre a História Quantitativa e a História Serial.

Um alerta final é sempre útil quando se apresenta, aos historiadores em formação, as modalidades que trabalham com o quantitativo. Ao empreender uma História Quantitativa, o historiador deve tomar o cuidado (isto é, se quiser tomar este cuidado) para não realizar uma história meramente descritiva de informações numéricas, sejam estas relativas à população ou à economia. Se a sua História Quantitativa se resumir a uma exposição de quantidades, terminará por se constituir meramente em uma História Descritiva, não-problematizada. Convenhamos que este tipo de história é a contrapartida, para o caso da História Narrativa, daquela tendência historiográfica do século XIX que ficou conhecida como História Factual (ou História Eventual) devido à intensa crítica que os historiadores da Escola dos Annales, e outros, fizeram a esta historiografia não-problematizada (que também era chamada pejorativamente de “historiografia positivista”, embora não se referindo necessariamente ao Positivismo enquanto corrente sociológica).

Reconheçamos que narrar simplesmente os fatos, de maneira não-problematizada, como se o que importasse na História fosse a mera descrição dos eventos ou “dos fatos que aconteceram” (como chegou a propor Ranke em uma frase célebre) será tão passível de críticas, de acordo com os critérios de uma História Problema, como descrever simplesmente os dados demográficos ou econômicos de uma determinada sociedade. Em uma caso teremos a História Narrativa Factual (da qual está muito longe a moderna História Narrativa problematizada que começou a aparecer a partir da década de 1980). Em outro caso teremos a História Quantitativa meramente descritiva, que levanta dados e mais dados mas não estabelece problemas, não utiliza estes dados minuciosamente levantados para produzir uma reflexão problematizada sobre a sociedade em um momento ou processo histórico.

Como o tratamento estatístico foi uma novidade na historiografia da primeira metade do século XX, nesta época se fez muita história quantitativa meramente descritiva que de fato soou como uma grande novidade (e, em certo sentido, era mesmo). Mas levantar os fatos cientificamente também era uma novidade para a historiografia do século XIX. Depois de décadas acumulando estes fatos (hoje se sabe que selecionar fatos e conectá-los deste ou daquele jeito é já parte de uma interpretação ou construção historiográfica) começou-se a se perguntar o que fazer com estes fatos. A História Problema rejeitou a História Narrativa meramente factual. Hoje a História Problema deve rejeitar a História Quantitativa meramente descritiva que alguns ainda insistem em fazer. O historiador de hoje deve lançar mão dos levantamentos quantitativos (empreendidos por ele mesmo ou por um outro) para formular problemas. Isto é, se ele quiser acompanhar este grande fluxo da História Problema que atravessou o século XX e chegou ao século XXI.

Posto isto, há lugar para todas estas especialidades combinadas às várias tendências. Para a história quantitativa serial problematizada. Para a história serial não essencialmente quantitativa (e também problematizada). Haverá até mesmo um lugar para a história quantitativa descritiva, pois sempre será útil para um 'historiador problematizador' se beneficiar desta exaustiva pesquisa que fizeram os historiadores quantitativos descritivos, para a partir dela formular questões e propor hipóteses. Da mesma forma, os historiadores problematizadores agradecem aqueles exaustivos levantamentos de fatos que foram empreendidos pelos historiadores factuais, porque eles podem ser utilizados como materiais (como pontos de partida) para uma reflexão problematizada sobre sociedades historicamente localizadas. Qualquer informação pode ter lá a sua valia em algum momento. O importante é que o historiador profissional compreenda bem que tipo de história estará fazendo: levantando fatos e dados, ou construindo uma história problematizada a partir destes fatos e dados?


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[A primeira parte do presente texto foi extraído do livro "O Projeto de Pesquisa em História" (Editora Vozes, 2011, 7a edição). A segunda parte foi extraída do livro "O Campo da História" (Editora Vozes, 2011, 8a edição)]


[BARROS, José D'Assunção. O Projeto de Pesquisa em História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, 7a edição. p.47-51]

[BARROS, José D'Assunção. O Campo da História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, 8a edição. http://ning.it/fmKC17]

Leia também o texto sobre Fontes Seriais no blog "A Escrita da História" (http://ning.it/i9JsYu).


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Referências:

BARROS, José D'Assunção. O Projeto de Pesquisa em História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, 7a edição.
BARROS, José D'Assunção. O Campo da História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, 8a edição.
CHAUNU, Pierre e CHAUNU, Huguette. Séville et l’Atlantique. Paris: S.E.V.P.E.N., 1955-1956.
FREYRE, Gilberto. O Escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX. São Paulo: Brasiliana, 1988.
FURET, François. A Oficina da História. Lisboa: Gradiva, 1991. v. I.

sábado, 22 de janeiro de 2011

História Local e História Regional

No último texto deste blog, falávamos da Geo-História como um novo campo histórico que, surgido na primeira metade do século XX em interdisciplinaridade com a Geografia, clarificava mais do que nunca a importância do conceito de "espaço" para a História. A obra "O Mediterrâneo" (1949), de Fernando Braudel, foi um marco para esta tomada de consciência do historiador em relação ao Espaço.

Se Fernando Braudel trabalhou com o ‘grande espaço’, as gerações seguintes de historiadores trouxeram também a possibilidade de uma nova tendência que abordaria o ‘pequeno espaço’. Esta nova tendência, que se fortalece nos anos 1950, ficou conhecida na França como ‘História Local’. Também aqui a contribuição da Geografia derivada de Vidal de La Blache destaca-se com particular nitidez, ajudando a configurar um conceito de Região que logo passaria a ser utilizado pelos Historiadores para o estudo de micro-espaços ou espaços localizados, em muitos sentidos dotados de uma homogeneidade bem maior do que os macro-espaços que haviam sido examinados por Braudel. Do macro-espaço que abriga civilizações, a historiografia moderna apresentava agora a possibilidade de examinar os micro-espaços que abrigavam populações localizadas, fragmentos de uma comunidade nacional mais ampla. A História Local nascia, aliás, como possibilidade de confirmar ou corrigir as grandes formulações que haviam sido propostas ao nível das histórias nacionais. A História Local – ou História Regional, como passaria a ser chamada com um sentido um pouco mais específico – surgia precisamente como a possibilidade de oferecer uma iluminação em detalhe de grandes questões econômicas, políticas, sociais e culturais que até então haviam sido examinadas no âmbito das nações ocidentais.


O modelo de compreensão do Espaço proposto pela escola de Vidal La Blache funcionou adequadamente para diversos estudos associados a esta historiografia européia dos anos 1950 que lidava com aquilo que Pierre Goubert – um dos grandes nomes da ‘História Local’ – chamava de “unidade provincial comum”, e que ele associava a unidades “tal como um country inglês, um contado italiano, uma Land alemã, um pays ou bailiwick franceses” (GOUBERT, 1992, p.45). Nestes casos e em outros, o espaço escolhido pelo historiador coincidia de modo geral com uma unidade administrativa e muitas vezes com uma unidade bastante homogênea do ponto de vista geográfico ou da perspectiva de práticas agrícolas. Também se tratava habitualmente de zonas mais ou menos estáveis – bem ao contrário do que ocorria em países como os da América Latina durante o período colonial, onde devemos considerar a ocorrência muito mais freqüente de “fronteiras móveis”. A espacialidade tipicamente européia em certos recortes temporais – que não coincide com a de outras áreas do planeta e para todos os períodos históricos – permitiu que fosse aproveitado por aqueles historiadores que começavam a desenvolver estudos regionais, cobrindo todo o Antigo Regime, um modelo onde o espaço podia ser investigado e apresentado previamente pelo historiador, como uma espécie de moldura onde os acontecimentos, práticas e processos sociais se desenrolavam. Freqüentemente, e até os anos 1960, as monografias derivadas da chamada Escola dos Annales apresentavam previamente a Introdução Geográfica, e depois vinha a História, a organização social, as ações do homem. A possibilidade de este modelo funcionar, naturalmente, dependia muito do objeto que se tinha em vista, para além dos padrões da espacialidade européia nos períodos considerados.

A crítica que depois se fez a este modelo no qual o espaço era como que dado previamente – tal como aparecia nas propostas derivadas da escola de Vidal de La Blache – é que na verdade estava sendo adotado um conceito não-operacional de Região. As Regiões vinham definidas previamente, como que estabelecidas de uma vez por todas, e bastava o historiador ou o geógrafo escolher a sua para depois trabalhar nela com suas problematizações específicas. Freqüentemente – quando a região coincidia com um recorte político-administrativo que permanecera sem maiores alterações desde a época estudada até o tempo presente – isto representava uma certa comodidade para o historiador, que podia buscar as suas fontes exclusivamente em arquivos concentrados nas regiões assim definidas.

Em seu célebre artigo sobre “A História Local”, Pierre Goubert chama atenção para o fato de que a emergência da história local dos anos 1950 havia sido motivada precisamente por uma combinação entre o interesse em estudar uma maior amplitude social (e não mais apenas os indivíduos ilustres, como nas crônicas regionais do século XIX) e alguns métodos que permitiriam este estudo para regiões mais localizadas – mais particularmente as abordagens seriais e estatísticas, capazes de trabalhar com dados referentes a toda uma população de maneira massiva. Ao trabalhar em suas pequenas localidades, os historiadores poderiam desta maneira fixar sua atenção “em uma região geográfica particular, cujos registros estivessem bem reunidos e pudessem ser analisados por um homem sozinho” (GOUBERT, 1992, p.49). A coincidência entre a região examinada e uma unidade administrativa tradicional como a paróquia rural ou o pequeno município, podemos acrescentar, permitia por vezes que o historiador resolvesse todas as suas carências de fontes em um único arquivo, ali mesmo encontrando e constituindo a série a partir da qual poderia extrair os dados sobre a população e a comunidade examinada.

Com o progressivo surgimento dos novos problemas e objetos que a expansão dos domínios historiográficos passou a oferecer cada vez mais no decurso do século XX, o modelo de região derivado da escola geográfica de La Blache começou a ser questionado precisamente porque deixava encoberta a questão essencial de que qualquer delimitação espacial é sempre uma delimitação arbitrária, e também de que as relações entre o homem e o espaço modificam-se com o tempo, tornando inúteis (ou não-operacionais) delimitações regionais que poderiam funcionar para um período mas não para outro. Uma paisagem rural facilmente pode se modificar a partir da ação do homem, o que mostra a inoperância de considerar regiões geográficas fixas – e isto se mostra especialmente relevante para os estudos da América Latina no período colonial, mais ainda do que para os estudos relativos à Europa do mesmo período . De igual maneira, um território (voltaremos a este conceito) não existe senão com relação ao âmbito de análises que se tem em vista, aos aspectos da vida humana que estão sendo examinados (se do âmbito econômico, político, cultural ou mental, por exemplo).

Atrelar o espaço ou o território historiográfico que o historiador constitui a uma pré-estabelecida região administrativa, geográfica (no sentido proposto por La Blache), ou de qualquer outro tipo, implicava em deixar escapar uma série de objetos historiográficos que não se ajustam a estes limites. A mesma comodidade arquivística que pode favorecer ou viabilizar um trabalho mais artesanal do historiador – capacitando-o para dar conta sozinho de seu objeto sem abandonar o seu pequeno recinto documental – também pode limitar e empobrecer as escolhas historiográficas. Uma determinada prática cultural, conforme veremos oportunamente, pode gerar um território específico que nada tenha a ver com o recorte administrativo de uma paróquia ou município, misturando pedaços de unidades paroquiais distintas ou vazando municípios. Do mesmo modo, uma realidade econômica ou de qualquer outro tipo não coincide necessariamente com a região geográfica no sentido tradicional.

A crítica aos modelos de recorte regional-administrativo, ou de recortes geográficos à velha maneira de Vidal La Blache, não surgiram apenas das novas buscas historiográficas, mas também de desenvolvimentos que se deram no próprio seio da Geografia Humana. Tal ressalta Ciro Flamarion Cardoso em um ensaio bastante importante sobre a História Agrária, à altura dos anos 1970 o conceito de “região” derivado da escola de Vidal de la Blache começou a ser radicalmente criticado por autores como Yves Lacoste (1976) – que sustentavam que a realidade impõe o reconhecimento de “especialidades diferenciais, de dimensões e significados variados, cujos limites se recortam e se superpõem, de tal maneira que, estando num ponto qualquer, não estaremos dentro de um, e sim de diversos conjuntos espaciais definidos de diferentes maneiras” (CARDOSO, 1979, p.47).

A idéia de tratar sob o ponto de vista das “espacialidades superpostas” a materialidade física sobre a qual se movimenta o homem em sociedade, incluindo sistemas diversificados que vão da rede de transportes à rede de conexões comerciais ou ao estabelecimento de padrões culturais, aproxima-se muito mais da realidade vivida do que o encerramento do espaço em regiões definidas de uma vez para sempre, e associadas apenas aos recortes administrativos e geográficos que habitualmente aparecem nos mapas. A realidade, em qualquer época, é necessariamente complexa, mesmo que esta complexidade não possa ser integralmente captada por nenhuma das ciências humanas, por mais que estas desenvolvam novos métodos para tentar apreender a realidade a partir de perspectivas cada vez mais enriquecidas.
 
[Leia o artigo no qual se baseou este texto sobre a "História Local" em: http://ning.it/gjjs2S]

[BARROS, José D'Assunção. "História, Região e Espacialidade" in Revista Brasileira de História Regional. Ponta Grossa: UEPG, 2005. vol.10, n°1, p.95-129]

Geo-História

A Geo-História é o campo histórico que estuda a vida humana no seu relacionamento com o ambiente natural e com o espaço concebido geograficamente. É com Fernando Braudel (1949) que este campo começa a se destacar, passando a se definir e a se encaixar nos estudos históricos de “longa duração” . Por outro lado, a Geo-História pode se dedicar mais especificamente ao estudo de um aspecto transversal no decurso de uma duração mais longa, como fez Le Roy Ladurie ao realizar uma "História do Clima" (1967) . Nestes casos, ocorre muito freqüentemente que o geo-historiador tome para fontes, além da documentação mais tradicional, os próprios vestígios da Natureza (Ladurie esteve atento aos “anéis” que se formam nos caules das árvores de vida longa, considerando que, de acordo com conclusões já estabelecidas pelos botânicos, um anel estreito significa um ano de seca, e um anel largo um ano beneficiado por chuvas abundantes). Conforme se vê, a Geo-História deve dialogar necessariamente não só com a Geografia, como também com outras ciências da natureza (a exemplo da Botânica ou da Ecologia).

Nas décadas recentes começaram a surgir outras modalidades historiográficas próximas à Geo-História,como por exemplo a História Ecológica, que é já uma demanda das últimas décadas, assombradas pelos desastres naturais, pelas devastações florestais, pela ameaça de extinção de inúmeras espécies animais, pelo aumento da poluição e pelo crescimento desordenado nas cidades. A História Ecológica é de certo modo uma Geo-História acrescida de uma preocupação ecológica fundamental

Vamos retornar à primeira metade do século XX para entender a Geo-História a partir de um novo impulso de interdisciplnaridade que, por aquela época, acabava de surgir entre os historiadores franceses ligados à escola dos Annales e alguns geógrafos, principalmente os ligados à escola do geógrafo francês Vidal de la Blache. Partindo dos primeiros empreendimentos de Lucien Febvre, que  publicara uma obra intitulada "A Terra e a Evolução Humana" (1922), a Geo-História começa a tomar forma como uma nova possibilidade de campo histórico, até se delinear mais claramente com uma das mais emblemáticas obras que foram constituídas na conexão deste campo histórico com outros, tais como a História Econômica e a História Política. Referimo-nos à célebre obra "O Mediterrâneo", de Fernando Braudel.

Lucien Febvre já havia oferecido à comunidade historiográfica, com "A Terra e a Evolução Humana" (1922), as primeiras experiências voltadas para a aplicação das concepções espaciais derivadas da escola geográfica de Vidal de La Blache - muito mais voltadas para a idéia de um "possibilismo geográfico" do que para o "determinismo historiográfico" que se via,então, em outras correntes geográficas.  Mas seria Fernando Braudel o primeiro a aplicar estas novas noções a um objeto historiográfico mais específico e de maior magnitude.

"O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico no tempo de Felipe II" (1945) – obra que se celebrizou por entremear para um mesmo objeto o exame de três temporalidades distintas (a longa, a média e a curta duração), cada qual com seu ritmo próprio – traz precisamente no primeiro volume, dedicado ao estudo de uma longa duração na qual tudo se transforma muito lentamente, um modelo que marcaria toda uma geração de historiadores: a idéia de estabelecer como ponto de partida da análise historiográfica o espaço geográfico.


Nesta obra de Braudel, como em Vidal de La Blache, o “meio” e o “espaço” são noções perfeitamente equivalentes. Oscilando entre a idéia de que o meio determina o homem, e a de que os homens instalam-se no meio natural transformando-o de modo a convertê-lo na principal base de sua vida social, Braudel termina por associar intimamente a ‘civilização’ e a ‘macro-espacialidade’. Em Mediterrâneo ele afirma que, “uma civilização é, na base, um espaço trabalhado, organizado pelos homens e pela história” (BRAUDEL, 1966, p.107), e em A Civilização Material do Capitalismo (1960) ele reitera esta relação sob a forma de uma indagação: “o que é uma civilização senão a antiga instalação de uma certa humanidade em um certo espaço?” (BRAUDEL, 1967, p.95). Esta relação íntima entre a sociedade e o meio geográfico (no sentido lablachiano) estaria precisamente na base da formação de uma nova modalidade historiográfica: a Geo-História.

A Geo-História introduz a geografia como grade de leitura para a história (DOSSE, 1994, p.136), e ao trazer o espaço para primeiro plano e não mais tratá-lo como mero teatro de operações – e sim como o próprio sujeito da História – possibilita o exame da longa duração, esta história quase imóvel que se desenrola sobre uma estrutura onde os elementos climáticos, geológicos, vegetais e animais encontram-se em um ambiente de equilíbrio dentro do qual se instala o homem. Rigorosamente falando, não é tanto com a idéia de um “determinismo geográfico” que Braudel trabalha em O Mediterrâneo, e sim com a idéia de um ‘possibilismo’ inspirado precisamente na geografia de Vidal de La Blache. Afora isto, o empreendimento a que o historiador francês se propõe nesta obra paradigmática é o de realizar uma ‘espacialização da temporalidade’, e mais tarde ele aprimorará também uma ‘espacialização da economia’, chegando ao conceito de “economias-mundo” que já se encontra perfeitamente elaborado e sustentado em exemplos históricos com A Civilização Material do Capitalismo.

O objeto do primeiro volume de O Mediterrâneo – que representa a grande originalidade desta obra dividida em três partes que se referem a cada uma das três temporalidades que marcam os ritmos da história – é a relação entre o Homem e o Espaço. É esta relação que ele pretende recuperar através de “uma história quase imóvel ... uma história lenta a desenvolver-se e a transformar-se, feita muito freqüentemente de retornos insistentes, de ciclos sem fim recomeçados” (BRAUDEL, 1969, p.11). A interação entre o Homem e o Espaço, as suas simbioses e estranhamentos, as limitações de um diante do outro, tudo isto não constitui propriamente a moldura do quadro que Braudel pretende examinar, mas o próprio quadro em si mesmo. Eis aqui o primeiro ato deste monumental ensaio historiográfico, e é sobre esta história quase-imóvel de longa duração – a temporalidade espacializada onde o tempo infiltra-se no solo a ponto de quase desaparecer – que se erguerá o segundo ato, a ‘média duração’ que rege os “destinos coletivos e movimentos de conjunto”, trazendo à tona uma história das estruturas que abrange desde os sistemas econômicos até as hegemonias políticas, os estados e sociedades. Trata-se de uma história de ritmos seculares, e não mais milenares, e depois dela surgirá o último andar – a ‘curta duração’ que rege a história dos acontecimentos, formada por “perturbações superficiais, espumas de ondas que a maré da história carrega em suas fortes espáduas” (BRAUDEL, 1969, p.21).

É fácil perceber como o sujeito da história, nas duas obras monumentais de Braudel, transfere-se do homem propriamente dito para realidades que lhe são muito superiores: o ‘Espaço’, no Mediterrâneo; e a ‘Vida Material’, na Civilização Material do Capitalismo. São estes grandes sujeitos históricos que abrem o campo de possibilismos para as subseqüentes histórias dos ‘movimentos coletivos’ e dos ‘indivíduos’. Tal como observa Peter Burke em uma sintética mas lúcida análise de O Mediterrâneo, um dos objetivos centrais de Braudel nesta obra é mostrar que tanto a história dos acontecimentos como a história das tendências gerais não podem ser compreendidas sem as características geográficas que as informam e que, de resto, tem a sua própria história longa:



“O capítulo sobre as montanhas, por exemplo, discute a cultura e a sociedade das regiões montanhosas, o conservadorismo dos montanheses, as barreiras socioculturais que separam os homens da montanha dos homens da planície, e a necessidade de muitos jovens montanheses emigrarem, tornando-se mercenários” (BURKE, 1991, p.50)



'O Mediterrâneo e Felipe II', enfim, é a insuperável obra prima em que Braudel pretendeu demonstrar que o tempo avança com diferenças velocidades, em uma espécie de polifonia na qual a parte mais grave coincide com a história quase imóvel do Espaço, e onde temporalidade e espacialidade praticamente se convertem uma à outra. Paradoxalmente, apesar de ter sido o primeiro a propor uma “história quase imóvel” como um dos níveis de análise, outra grande contribuição de O Mediterrâneo foi a de mostrar que tudo está sujeito a mudanças, ainda que lentas, o que inclui o próprio Espaço. De fato, a leitura de O Mediterrâneo nos mostra que o espaço definido por este grande Mar era muito maior no século XVI do que nos dias de hoje, pelo simples fato de que o transporte e a comunicação eram muito mais demorados naquele período . Com isto, percebe-se que a espacialidade dilata-se ou comprime-se no tempo conforme consideremos um período ou outro nos quais se contraponham diferentes possibilidades dos homens movimentarem-se no espaço. Mais uma vez, homem, espaço e tempo aparecem como três fatores indissociáveis.

Se o Espaço está sujeito aos ditames do Tempo, por outro lado a Temporalidade também está sujeita aos ditames do Espaço e do meio geográfico. Apenas para dar um exemplo assinalado por François Dosse, o mesmo Mediterrâneo de Braudel também nos mostra um mundo dicotomicamente dividido em duas estações: enquanto o verão autoriza o tempo da guerra, o inverno anuncia a estação da trégua – uma vez que “o mar revolto não permite mais aos grandes comboios militares se encaminharem de um ponto ao outro do espaço mediterrânico: é, então, o tempo dos boatos insensatos, mas também o tempo das negociações e das resoluções pacíficas” (DOSSE, 1994, p.140). Desta maneira o Clima (um aspecto físico do meio geográfico) reconfigura o Espaço, e este redefine o ritmo de tempos em que se desenrolam as ações humanas. Espaço, Tempo e Homem.

A obra de Fernando Braudel também nos permite iniciar outra reflexão que retomaremos mais adiante, e que se refere à consideração de uma diferença fundamental entre “duração” e “recorte de tempo”. Braudel ousou estudar o ‘grande espaço’ no ‘tempo longo’. Quando falamos em “tempo longo” referimo-nos a uma “duração” – ou antes: a um determinado ‘ritmo de duração’. O tempo longo é o tempo que se alonga, o tempo que parece passar mais lentamente. Não devemos confundir “longa duração” com “recorte extenso”. O recorte de Braudel em O Mediterrâneo – pelo menos o recorte deste trecho da História de que ele se vale para orquestrar polifonicamente as três durações distintas – é o reinado de Felipe II. Braudel não estudou nesta obra um ‘recorte temporal estendido’. Ele estudou um recorte tradicional, que cabe em uma ou duas gerações e que coincide com a duração de um reinado, mas examinando através deste recorte a passagem do tempo em três ritmos diferentes. Uma outra coisa seria examinar um determinado espaço – grande ou pequeno – em um recorte extenso ou estendido. Dito de outra forma, o ritmo de tempo que o historiador sintoniza em sua análise de uma determinada realidade histórico-social nada tem a ver com o “recorte temporal historiográfico” escolhido pelo historiador.

Com relação ao seu recorte espacial, Fernando Braudel havia considerado que o Mediterrâneo possuía sob certos aspectos uma unidade que transcendia as unidades nacionais que se agrupavam em torno do grande “mar interior”, e que ultrapassava a polarização política entre os dois grandes impérios da época: o Espanhol e o Turco. Por outro lado, o historiador francês precisou lidar com a ‘unidade na diversidade’, e descreve dezenas de regiões autônomas cujos ritmos convergem para um ritmo supralocal. O mundo mediterrânico que ele descreve é constituído por um grande complexo de ambientes – mares, ilhas, montanhas, planície e desertos – e que se vê partilhado em uma pluralidade de regiões a terem sua heterogeneidade decifrada antes de ser possível propor a homogeneidade maior ditada pelo tipo de vida sugerido pelo grande Mar. Este foi o desafio enfrentado por Braudel.

[Leia o artigo completo, do qual este texto foi adaptado, e compreenda melhor a interdisciplinaridade entre História e Geografia, acessando: http://ning.it/eVVbrn]

[BARROS, José D'Assunção. "Geografia e História: uma interdisciplinaridade mediada pelo espaço" in Geografia - revista da Universidade Estadual de Londrina. vol.19, n°3, 2010. p.67-84]

Sobre a Geo-História, leia também o livro "O Campo da História" (Petrópolis: editora Vozes, 2011, 8a edição).

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Obras Citadas:

BARROS, José D'Assunção. O Campo da História. Petrópolis: editora Vozes, 2011, 8a edição.
BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico na época de Felipe II. São Paulo: Martins Fonte, 1989.
DOSSE, François. O Tempo de Marc Bloch e Lucien Febvre. A história em Migalhas. Bauru: EDUSC, 2003. p. 91-146.
FEBVRE, Lucien. A terra e a evolução humana: introdução geográfica à história. Lisboa: Cosmos, 1991
GOUBERT, Pierre. “História Local” in História & Perspectivas, Uberlândia, 6-45-47, Jan/Jun 1992.
LA BLACHE, Paul Vidal de. Princípios de Geografia Humana. Lisboa: Cosmo,s/d.
LADURIE, Emmanuel Le Roy. Histoire du climat depuis l’an 1000. Paris: Flammarion, 1967.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

História das Idéias

A História das Idéias é um domínio que conquistou sua perenidade, no quadro de alternativas historiográficas, desde princípios do século XX. Passou por variações no que se refere às concepções das diversas gerações de historiadores das idéias, e conheceu momentos de maior ou menor efervescência no debate historiográfico e no mercado editorial, mas sem sombra de dúvida conquistou um lugar bastante privilegiado no Campo da História. No decorrer século XX, a historiografia pôde assistir ao desenrolar de uma rica trajetória que parece ter partido de uma História das Idéias ainda desencarnada de um contexto social – e que atinge a sua proeminência entre as décadas de 1940 e 1950 – até se chegar a uma verdadeira História Social das Idéias, na qual se mostra tarefa primordial do historiador compreender e constituir um contexto social adequado antes de se tornar íntimo das idéias que pretende examinar.


Nosso objetivo, neste pequeno texto de apresentação para esta modalidade historiográfica, não será o de recuperar na sua inteireza a complexa trajetória deste campo histórico, nem o de pontuá-la com exemplos exaustivos, mas sim o de vislumbrar os diálogos deste domínio que é chamado de História das Idéias com outros campos históricos – sejam eles dimensões, abordagens ou domínios históricos. Naturalmente que, dada a natureza dos seus objetos, a História das Idéias sintoniza francamente ou com a História Cultural, ou com a História Política, sendo estes os principais campos históricos que se colocam aqui em diálogo (o que naturalmente não exclui ainda a possibilidade de uma História das Idéias Econômicas). Às vezes esse diálogo é tão intenso que certos setores da História das Idéias dão mesmo a impressão de serem domínios que se desdobram destas dimensões que são habitualmente denominadas História Cultural e História Política.

Para o caso dos diálogos com a História Política, basta pensar nos trabalhos que investigam mais diretamente as idéias políticas, entre outros. Um diálogo mais intenso com a História Cultural ou com a História Política, ou com ambas, aparece bem explicitamente no primeiro dos limiares possíveis para a História das Idéias: aquele em que são examinadas as idéias relacionadas ao pensamento sistematizado de indivíduos específicos (por exemplo, os tratados filosóficos, as teorias políticas escritas por grandes ou pequenos pensadores políticos, ou as concepções estéticas dos artistas e literatos de diversos tipos e níveis). O mesmo ocorre quando a História das Idéias volta-se para o estudo de movimentos literários e filosóficos tratando-os como tendências que abrangem grupos mais amplos de pensadores (o Verismo na Literatura, ou o Iluminismo na política) e também quando são examinadas as flutuações de pensamento ou opinião em torno de idéias mais específicas como a “república”, a “democracia”, a “liberdade” (ou quaisquer outras). Até este limiar, tem-se um domínio que muitos preferem também chamar de História Intelectual (por exemplo DARNTON, 1990: 175-197).

Prosseguindo em seu campo de possibilidades, no momento em que passa a investir em uma preocupação mais sistemática de examinar as ideologias e a difusão de idéias, a História das Idéias começa a se interconectar não apenas com a História Cultural como também com a História Social em seu sentido mais stricto. Muitos preferem falar aqui de algo mais específico como uma História Social das Idéias, mas é importante ressaltar que – se estivermos empregando aquele sentido mais amplo de “História Social” onde toda História nos dias de hoje é uma “história social” – teremos por força de considerar que toda boa história das idéias, tal como a entende a moderna historiografia profissional, é uma História Social das Idéias. A propósito disto, é bom ressaltar que, nos dias de hoje – mesmo quando examina as idéias estéticas de um artista ou literato – é muito raro que algum historiador profissional se proponha a empreender aquele já mencionado tipo de História das Idéias que as concebe desencarnadas de seu contexto social, tal como o fizeram muitos historiadores na primeira metade do século XX.

A partir do limiar em que o Historiador das Idéias avança pela investigação de idéias que já se apresentam desencarnadas de autoria – ou porque estão mergulhadas na chamada cultura popular, ou porque se referem à coletividade em sentido mais amplo – sua prática historiográfica começa a se inserir em um profícuo diálogo com aqueles setores da História Cultural que investigam as visões de mundo, representações e expressões coletivas. Também aqui, na medida em que estas idéias começam a tocar em algo como as mentalidades ou o “inconsciente coletivo”, poderemos começar a vislumbrar os diálogos da História das Idéias com dimensões como a História das Mentalidades ou como a Psico-História.

Um esquema complexo poderá ajudar a apreender o campo das possibilidades temáticas pertinentes com a História das Idéias:









Quadro 1: Âmbitos de estudos pertinentes à História das Idéias (ver o esquema no artigo em referência)


Podemos situar esquematicamente os diversos objetos de interesse antes citados. Da esquerda para a direita – sugerindo uma direção do mais concreto e singular ao âmbito mais coletivo – teríamos os estudos de idéias específicas, no sentido transversal . Pode-se estudar as variações na percepção das idéias de Igualdade ou Liberdade, por exemplo, ou ainda relações entre duas ou mais idéias, como seria o caso de um estudo relacionando as relações entre os conceitos de ‘igualdade’ e ‘diferença’. Ao mesmo tempo, pode-se examinar tanto estas idéias em um contexto específico como percorrendo vários contextos históricos (o que irá requerer uma abordagem comparativa), da mesma forma em que também será possível examiná-las nos âmbitos do intratexto e do intertexto. Sobre a análise intratextual e intertextual das idéias, num caso o historiador das idéias estará trabalhando com textos singulares e específicos, e no outro caso estará examinando dois ou mais textos em relação intertextual. Em ambas as situações, recairemos em um estudo dos discursos para o qual o historiador das idéias poderá se valer de diversificados métodos que vão desde as técnicas de análise de discurso até as abordagens semióticas e lingüísticas destinadas a captar a significação estrutural dos textos. No esquema proposto, assinalamos campos separados para o estudo das idéias em si mesmas e para os estudos em que estas idéias estarão sendo analisadas em articulação às expressões culturais que as animam – como por exemplo o estudo de uma idéia em um texto literário ou ensaístico específico, em uma obra dramatúrgica, em um ciclo de canções, e assim por diante.

Das idéias tomadas singularmente, passamos em seguida aos sistemas de pensamento mais amplos – aqueles que se verificam ao nível do ‘pensamento sistematizado’ de um autor, e aqueles que já correspondem aos grandes movimentos – tudo isto se abrindo a possibilidades de abordagens relacionadas às idéias políticas, filosóficas, estéticas ou científicas . Em um nível maior de abrangência, poderiam ser citadas inúmeras obras que buscam trazer dentro de algum contexto específico um panorama de idéias relacionadas a uma determinada dimensão (política, filosófica, estética), como fez Quentin Skinner – um dos mais destacados historiadores das idéias – para o estudo das idéias políticas (SKINNER, 1996). O estudo dos grandes paradigmas científicos, na interconexão da História das Idéias com o domínio da História das Ciências – e também no seu diálogo interdisciplinar com a Filosofia da Ciência – vem a seguir. Para este caso, é relevante mencionar contribuições que vão das análises do “paradigma científico” em sentido mais amplo (Gaston Bachelar, Thomas Khun) aos paradigmas disciplinares, jurídicos, normativos, repressivos, tal como nos oferece em diversas de suas obras Michel Foucault Entre os estudos sobre as idéias inseridas em campos disciplinares específicos, podem ser citados, por exemplo, os próprios estudos de historiografia onde são discutidas as diversas idéias de história, seja no âmbito da produção específica de um autor ou no âmbito de correntes historiográficas mais amplas – cumprindo notar que existem também os estudos que investigam a interação entre as idéias historiográficas e os estilos narrativos.

O campo dedicado ao estudo das Ideologias e da difusão de idéias, bem como o campo seguinte, já referido às idéias coletivas de longa duração – mas também às idéias que circulam em articulação a todo um âmbito de práticas culturais que escapam ao universo da cultura letrada – já começam a posicionar a História das Idéias diante de possíveis diálogos com a História das Mentalidades, que é segundo nossa classificação uma ‘dimensão histórica’. A História das Mentalidades, por outro lado, não deve ser confundida com a História das Idéias, ainda que entre elas haja uma possibilidade de intersecção – mais especificamente nas proximidades do limiar que assinala o âmbito dos inconscientes coletivos. Na verdade, a História das Mentalidades também se abre para possibilidades que vão muito além do domínio da História das Idéias, particularmente nas suas investigações relativas aos modos de pensar e de sentir no sentido mais abstrato , bem como na possibilidade de utilizar fontes seriais para verificar as lentas variações históricas em certos padrões mentais. Ao mesmo tempo, tal como já vimos, a maior parte dos estudos ambientados na História das Idéias relaciona-se a idéias que se concretizam de alguma forma em discursos, sistemas de pensamento, sistemas normativos, paradigmas interdisciplinares, e movimentos políticos ou de qualquer outra ordem.

Com relação às abordagens possíveis aos historiadores das idéias – aos seus métodos e fontes históricas possíveis – são empregadas as mais diversas abordagens, indo das variadas possibilidades de análise do discurso aos variados aportes trazidos pelos desenvolvimentos da Lingüística e da Semiótica. Mas um giro metodológico fundamental, certamente, terá sido aquele que – nos anos 1970 – relegou ao passado da historiografia a História das Idéias descarnada e descontextualizada que ainda podia ser vista nos anos 1940 e 1950. Foi com os “contextualistas” ingleses – sobretudo com os trabalhos de História das Idéias Políticas desenvolvidos por Quentin Skinner, John Dunn e John Pocock – que surge a proposta de que as idéias deveriam ser sempre e necessariamente relacionadas diretamente aos seus contextos de enunciação, uma vez que os ambientes históricos e culturais sempre influenciam extraordinariamente a escolha das questões a serem estudadas e, sobretudo, a formatação da própria linguagem mais específica dentro da qual um debate de idéias se realiza.

Desta maneira, seria tarefa primordial do historiador das idéias trazer à luz a linguagem original de um determinado circuito de idéias – evitando o anacronismo e aprofundando-se na adequada compreensão de suas sutilezas de significação – impondo deste modo a necessidade de recriar a temporalidade e o contexto inerente à própria obra. Trata-se, assim, para nos atermos ainda ao caso dos estudos sobre as idéias políticas, de ultrapassar a perspectiva intemporal que às vezes pode ser notada nas obras de historiadores das idéias e cientistas políticos das décadas anteriores, como ocorre por exemplo com as obras de Hannah Arendt. Ressalte-se ainda que, para o novo padrão de História das Idéias consolidado a partir dos contextualistas ingleses, seria importante não apenas reconstituir uma adequada relação entre texto e contexto como também situar a análise dentro de uma perspectiva de que as estruturas lingüísticas são fundamentais para a construção do pensamento de qualquer sujeito histórico – o que, portanto, coloca o historiador das idéias diante do desafio de que não é possível compreender uma idéia sem a plena consciência do momentum lingüístico dentro do qual esta idéia foi formulada.

Não menos importante para o historiador das idéias é perceber e dar a perceber a rede dentro da qual está inserido determinado autor “produtor de idéias” – investigando dentro desta rede tanto as influências que o autor recebe como a recepção de suas idéias pelos seus diversos contemporâneos. Importante examinar, ainda, os diálogos do “produtor de idéias” com toda uma rede intertextual que remonta à tradição dentro da qual seu pensamento se inscreve ou que, também de modo contrário, o contrasta com as tradições contra as quais as idéias do autor estabelecem uma relação de ruptura.

Em que pese a importância dos aportes metodológicos oferecidos pela corrente contextualista à História das Idéias, também não deixaram de ser criticados os exageros da crença de que seria rigorosamente possível recuperar o sentido original de uma obra, particularmente chamando-se atenção para o fato de que a interpretação dos textos e idéias de uma época não deixam de ser guiadas em alguma instância pelos valores do presente do próprio historiador que empreende a análise. Desta maneira, pairando criticamente entre a antiga ilusão de neutralidade e o permanente estado de alerta diante dos perigos do anacronismo, o historiador das idéias deveria se habilitar a trabalhar concedendo um espaço às vozes do passado sem pretender sufocar inutilmente a sua própria voz. Ao mesmo tempo, entre as impossibilidades de um mais-que-perfeito “contextualismo” e as pretensões de um “internalismo” que investe nas possibilidades de buscar exclusivamente dentro de um texto os seus significados – geralmente à luz das metodologias semióticas de origem estruturalista – o historiador das idéias deve fazer as suas escolhas possíveis.

A História das Idéias, enfim, tem se revelado um dos mais produtivos domínios historiográficos, desenvolvendo importantes diálogos com dimensões historiográficas como a História Cultural, a História Social, a História das Mentalidades e a História Política, e também estabelecendo as suas conexões com inúmeros domínios historiográficos que vão da História das Ciências à História da Literatura, além de abrigar as mais diversas abordagens disponíveis para uma análise de suas fontes e contextos históricos. Dentro deste rico quadro de diálogos intradisciplinares e interdisciplinares, o seu interesse tende a se renovar incorporando os demais progressos e novidades que se dão no seio da historiografia e das demais ciências humanas.

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Leia o artigo completo em:  http://ning.it/gRqLEP
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[BARROS, José D'Assunção. "História das Idéias – em torno de um domínio historiográfico” in Revista Locus – Revista do Departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora, UFJF. ISSN: 1413-3024. Vol. 13, n°1, 2007, p.41-64]
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Referências:

BACHELAR, Gaston Um Novo Paradigma Científico. São Paulo: Nova Cultural, 1998.


BARROS, José. O Campo da História – Especialidades e Abordagens. Petrópolis: Vozes, 2004.

DARTON, Robert. “História Intelectual e Cultural” In O Beijo de Lamourette. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.175-197.

DUNN, John. The political thought of John Locke, Cambridge: 1969.

FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. Petrópolis: Vozes, 1972.

KHUN, Thomas. A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Perspectiva, 1988.

POCOCK, John. The machiavellian moment: florentine political thought and the Atlantic republican tradition. Princeton: 1975.

SKINNER, Quentin. As Fundações do Pensamento Político Moderno, São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

sábado, 8 de janeiro de 2011

História da Cultura Material

Com a História da Cultura Material temos o campo histórico que corresponde à interação do Homem com a materialidade que mais diretamente envolve a sua existência: aquela que o próprio Homem produz em sua vida social, o que implica desde a construção do seu habitat até os objetos duráveis e não-duráveis do seu cotidiano.

Se considerarmos a tripartição de critérios proposta em nossa teoria dos Campos Históricos, definiremos a História da Cultura Material como uma ‘dimensão’ historiográfica. De fato, quando se põe a avaliar uma sociedade do ponto de vista da Cultura Material, o que o historiador está trazendo a primeiro plano é uma dimensão tão importante quanto a Política, a Cultura, as Mentalidades, o Imaginário, ou as várias outras dimensões que dão origem a campos históricos desta natureza. A História da Cultura Material é deste modo uma modalidade historiográfica definida por critérios similares àqueles que presidem a geração de modalidades como a História Política ou a História da Cultura. Se nestas modalidades o historiador traz a primeiro plano, respectivamente, as relações de poder (história política) e a cultura em sentido amplo (a história cultural), a História da Cultura Material traz para primeiro plano a própria vida material dos homens que vivem em sociedade, incluindo os objetos e materiais que constituem a base desta cultura material gerida e organizada socialmente.

A partir desta definição, as relações da História da Cultura Material com outras modalidades historiográficas se frutificam, uma vez que podemos entendê-la como o campo histórico que estuda fundamentalmente os objetos materiais em sua interação com os aspectos mais concretos da vida humana, desdobrando-se por domínios históricos que vão do estudo dos utensílios ao estudo da alimentação, do vestuário, da moradia e das condições materiais do trabalho humano. A noção fundamental que atravessa este campo, bem entendido, é a da “matéria” (ou do ‘objeto material’, que pode ser tanto o de tipo durável, como no caso dos monumentos e dos utensílios, como do tipo perecível, como no caso dos alimentos). Contudo, é importante ressaltar que este campo deve examinar não o objeto material tomado em si mesmo, mas sim os seus usos, as suas apropriações sociais, as técnicas envolvidas na sua manipulação, a sua importância econômica e a sua necessidade social e cultural. Afinal, a noção de “cultura” também não deixa de atravessar este campo.

É assim que o historiador da cultura material não se mostra atento apenas aos tecidos e objetos da indumentária, mas também aos modos de vestir, às oscilações da moda, às suas variações conforme os grupos sociais, às demarcações políticas que por vezes se colam a uma determinada roupa que os indivíduos de certas minorias podem ser obrigados a utilizar em sociedades que aproximam os critérios da “diferença” e da “desigualdade”. Com relação aos alimentos, o historiador buscará não um exaustivo inventário dos vários gêneros alimentícios, mas uma compreensão dos seus modos de consumo, dos regimes alimentares que predominam nos diversificados grupos sociais e profissionais, das expectativas simbólicas de cada alimento; das formas de armazenamento e intercâmbio dos gêneros alimentícios. Da variedade de habitações, procurará extrair uma compreensão da vida familiar, das relações entre público e privado, da segregação social que pode ser estabelecida a partir de determinadas configurações de espaço, dos regimes imaginários que podem estar associados a certos padrões habitacionais, da correlação entre os vários tipos de bens imóveis e os grupos sociais a que pertencem os seus possuidores.

Ao perceber a materialidade de uma cidade – os seus monumentos, os seus espaços de circulação, os seus espaços de trancafiamento, os seus compartimentos lícitos e ilícitos – o historiador estará buscando perceber os modos de vida da sociedade que a habita, as expectativas dos seus habitantes. Ao examinar uma cidade murada, como aquelas que eram tão típicas da Idade Média e do princípio da Modernidade, tentará compreender o que significa este tipo de “viver murado”, que medos aparecem a reboque desta espécie de enclausuramento urbano ou, na contrapartida, que sensações de segurança contribuirão para o alívio do habitante murado frente aos riscos de invasão externa. A cidade aberta, com outros tipos de problemas, inspirará reflexões distintas, e darão dar a conhecer outros tipos de sociedades. O historiador da cultura material que trabalha com a História Urbana tem muito a perceber através dos objetos citadinos.

Móveis, objetos decorativos, ferramentas, máquinas, matérias primas que darão luz a objetos manufaturados, veículos que os transportarão ao longo de grandes avenidas e estradas, com destino a determinados grupos de consumidores que por estes bens terão de pagar em moeda sonante ... tudo pode ser objeto de uma História da Cultura Material. Pode-se perceber que, além da noção de “materialidade”, uma outra noção marcante que muito freqüentemente atravessa este campo histórico é a de “cotidiano”. O historiador da cultura material estará freqüentemente estudando os domínios da vida cotidiana, da vida privada, embora estes domínios também possam ser partilhados por historiadores voltados predominantemente para outras dimensões ou enfoques, como é também o caso da História das Mentalidades.

O estudo atento dos objetos da cultura material faz com que esta especificidade da história esteja intimamente associada à Arqueologia, mas do ponto de vista da categorização das modalidades historiográficas esta última designação refere-se preferencialmente a uma ‘abordagem’ relacionada ao levantamento e à decifração de fontes da cultura material, e não tanto à ‘dimensão’ de vida social que é trazida por estas fontes. Por outro lado, vale lembrar que, se tradicionalmente a Arqueologia vinha sendo tratada como ciência distinta da História, gerando uma dimensão corporativa própria (a dos arqueólogos), é precisamente a entrada em cena de uma História da Cultura Material (assim definida conceitualmente) o que atua mais fortemente no sentido de incorporar a comunidade arqueológica na comunidade historiadora. Rigorosamente, todo bom arqueólogo é também um historiador da Cultura Material, não se limitando a coletar resíduos de civilizações. De qualquer modo, para considerar a tábua de critérios que estamos utilizando para visualizar as partições internas ao campo historiográfico, pode-se dizer que, ao se mostrar relacionada a um ‘modo’ de desvendar vestígios materiais e de conectá-los para reconstruir a História, a Arqueologia vincula-se mais coerentemente a uma segunda ordem de critérios que se definem pelas ‘abordagens’ utilizadas pelo historiador. Neste sentido, para um historiador, a Arqueologia remete sobretudo aos ‘métodos arqueológicos’ que eventualmente serão empregados para levantar fontes e dados empíricos no decorrer da pesquisa – fontes e dados sobre os quais o historiador fará incidir depois um determinado enfoque que pode ou não ser o da História da Cultura Material. Mas, de qualquer maneira, a História da Cultura Material e a Arqueologia freqüentemente andam juntas.

Também a História da Cultura Material pode atuar na conexão com campos historiográficos definidos por outras dimensões ou enfoques. Assim, a “matéria” e a “imagem” podem ser examinadas nas suas interrelações, e conseqüentemente um historiador pode associar os campos da História da Cultura Material e da História do Imaginário. Segundo Gaston Bachelard (1943), “a imaginação de um movimento reclama a imaginação de uma matéria”. A partir de um enfoque que não deixa de ser similar, os objetos e artefatos são encarados como complexos de tendências ou “redes de gestos” por Leroi-Gourhan – que de algum modo não deixa de ser simultaneamente um antropólogo da cultura material e do imaginário que se dedicou mais particularmente às culturas paleolíticas. O vaso, por exemplo, seria uma materialização da tendência geral de conter fluidos . Relacionando gestos, imagens e objetos materiais, Leroi-Gourhan analisa determinados objetos, como a “casca”, visando estabelecer curiosas interconexões. “As tendências para “conter”, “flutuar”, “cobrir” particularizadas pelas técnicas do tratamento da casca dão o vaso, a canoa ou o telhado. Se este vaso de casca é cozido, implica imediatamente uma outra clivagem possível das tendências: coser para conter dá o vaso de casca, coser para vestir dá a veste de peles, coser para abrigar dá a casa de pranchas cozidas”.

Estas divagações podem parecer demasiado abstratas à primeira vista, mas devemos aprender com elas. As relações entre os objetos da cultura material e o imaginário podem ser exploradas criativamente pelos historiadores de um ou outro destes campos. Independente de ser um símbolo bélico, a ‘espada’ também se abre imagisticamente para o gesto do ‘ordenamento social’. Ela estende-se para o gesto que corta, que descrimina, que separa, que compartimenta — que ordena o social, enfim. Neste sentido, o símbolo incorpora com a sugestão do ‘ordenamento social’ mais esta outra função representativa, para além do enfrentamento do inimigo. A espada torna-se um símbolo polissêmico, representação da força mas também, da justiça.

As interrelações mais imediatas da História da Cultura Material afirmar-se-ão provavelmente com a História Econômica, que, conforme veremos mais adiante, terá como um dos seus três setores básicos de preocupações o estudo da esfera da Produção. Neste caso, os objetos materiais privilegiados para estudo serão as ferramentas, as máquinas, a matéria prima – ou, para utilizar a terminologia marxista, os ‘meios’ e ‘instrumentos de produção’. Sem contar as ‘técnicas’, que também se tornam objeto de interesse da História da Cultura Material (usos que se incorporam a determinados objetos, ou que até mesmo os definem). Na esfera econômica da Circulação, teremos como objetos da cultura material importantes as “moedas”, pontos focais para estudos de cultura material, de história econômica e novamente do imaginário (se o historiador ocupar-se também do estudo da simbologia de suas efígies). Quanto aos objetos ligados ao Consumo, são infinitos.

Um exemplo de incorporação à análise historiográfica de enfoques relacionados à História da Cultura Material foi concretizado por Fernando Braudel, em um dos volumes de 'Civilização Material, Economia e Capitalismo' (1967) . Por outro lado, Marc Bloch pode ser considerado um precursor, levando-se em conta que teria empreendido uma modalidade de História da Cultura Material ao analisar a ‘paisagem rural’ na medievalidade francesa.

Enfim, o tratamento historiográfico da Cultura Material pode ser identificado através de um longo desenvolvimento, no decurso deste último século, que vai desde estas obras pioneiras até as obras mais recentes, como a História das Coisas Banais de Daniel Roche – obra que examina para a sociedade européia do século XVII ao XIX diversificados aspectos como a alimentação, o vestuário e aparência, o fornecimento de água, luz e aquecimento, os móveis e utensílios e, de uma maneira geral, a produção de objetos e o seu consumo. Eis aí, portanto, uma história do ocidente moderno através dos objetos e dos seus usos, inscrevendo-os em uma teia de relações humanas que deve ser captada para que a História da Cultura Material não se transforme em um mero inventário descritivo de bens diversos e de suas formas de consumo.
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Leia a continuação deste texto em: http://ning.it/gIFy65

BARROS, José D'Assunção. “História da Cultura Material: notas sobre um campo histórico em suas relações intradisciplinares e interdisciplinares” in Patrimoniuss. março/2009. http://ning.it/gIFy65

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

História Social

Entre as inúmeras modalidades e especialidades nas quais se reparte a disciplina e a prática da História nos dias de hoje, talvez a dimensão historiográfica mais sujeita a oscilações de significado seja a da História Social. Modalidade historiográfica rica de interdisciplinaridades com todas as Ciências Sociais, e igualmente rica na sua possibilidade de objetos de estudo, a História Social abre-se de fato a variadas possibilidades de definição e delimitação que certamente interferem nos vários trabalhos produzidos pelos historiadores que atuam neste campo intradisciplinar. Veremos, a seguir, que há razões várias para essa oferta de uma diversidade de sentidos que vem à tona quando falamos em História Social.

Para retornar aos primeiros usos da expressão “história social” na historiografia moderna, podemos fixar a História Social como modalidade que começa a aparecer de maneira auto-referenciada por ocasião do surgimento na França do Grupo dos Annales, e que naquele momento principia a se mostrar claramente construída – ao lado da História Econômica – por oposição à História Política tradicional. Nesta esteira inicial, houve quem direcionasse a expressão “História Social” para uma história das grandes massas ou para uma história dos grupos sociais de várias espécies (em contraste com a biografia dos grandes homens e com a História das Instituições a que tinha sido tão afeita à historiografia do século anterior).

Também é evidente que a historiografia marxista da mesma época – seguindo os princípios norteadores que já no século XIX haviam sido indicados por Marx e Engels com vistas a uma nova filosofia da história – direcionava-se na mesma época para a elaboração de uma história preocupada com a conjunção dos aspectos econômicos e dos aspectos sociais. O que haveria de relevante a ser estudado não era certamente a história dos grandes homens, ou mesmo a história política dos grandes estados e das instituições, mas sim a historia dos ‘modos de produção’ – isto é, das bases econômicas e sociais que determinariam toda a vida social – e também a história das ‘lutas de classes’, isto é, das relações entre os diversos grupos sociais presentes em uma sociedade particularmente nas suas situações de conflito.

A delimitação de um novo campo a ser chamado de “história social” surge portanto sob a forte influência destes dois campos de motivação que passaram a exercer profunda influência no seio da historiografia da primeira metade do século XX. De um lado vinham os ataques desfechados pelo grupo dos Annales contra aquilo que consideravam uma “velha história política”, de outro lado começavam a surgir as primeiras grandes obras da historiografia marxista, que cumpriam fielmente um programa de filosofia da história voltado para o econômico e para o social tal como havia sido proposto pelos fundadores do materialismo histórico a partir de meados do século XIX.

A História Social, enfim, surgia no cenário historiográfico como campo relevante e definitivo a se estabelecer no âmbito das modalidades historiográficas que devem ser definidas pelas dimensões que são trazidas à tona quando o historiador se põe a examinar um processo histórico qualquer. Considerando aquilo que é colocado em evidência em uma determinada análise historiográfica – a Política, a Cultura, a Economia, as relações sociais – poderíamos ter respectivamente uma História Política, uma História Cultural, uma História Econômica, uma História Social, entre outras possibilidades.

Tal como foi explicitado atrás, esta tendência da historiografia contemporânea a constituir e perceber a história social como campo relacionado a uma dimensão social específica liga-se ao fato de que, na primeira metade do século XX, os novos historiadores passam a opor um novo campo de interesses e enfoques à História Política do século XIX, o que de certo modo produzia uma aliança entre a História Social e a História Econômica na luta pelo estabelecimento de uma historiografia inteiramente nova no que se refere aos fazeres historiográficos do século anterior. À História Social e à História Econômica – como campos inauguradores de um novo fazer historiográfico – logo se juntariam a História Demográfica, a História Cultural, a História das Mentalidades, a História do Imaginário, e também uma nova História Política, não mais preocupada apenas com o poder institucional mas sim com todas as formas de poder que circulam em qualquer sociedade, inclusive os micropoderes que afetam a vida cotidiana e as relações familiares. O quadro das dimensões historiográficas, portanto, multidiversificava-se – e é neste contexto que pode ser definido um primeiro sentido para a História Social como uma instância historiográfica específica, no mesmo nível da História Política e da História da Cultura, apenas para dar dois exemplos.

Por outro lado, outra indagação que surge nos dias de hoje, quando a expressão “história social” já multiplicou os seus sentidos e as suas aberturas de significados, é se a História Social deve ser considerada uma especialidade, com objetos próprios e definidos, ou se o “social” que ao seu nome se agrega como adjetivo acaba de um modo ou de outro por fazer coincidir o seu circuito de interesses com a sociedade – o que faria da História Social uma espécie de categoria transcendente que acaba perpassando ou mesmo englobando todas as outras especialidades da História.

[...]

Com relação às conexões da História Social com as ‘abordagens’ – isto é, com os sub-campos da historiografia que se referem a métodos e fazeres históricos – elas podem se estabelecer tanto no nível dos tratamentos qualitativos, como no nível dos tratamentos quantitativos. Da mesma forma, a História Social pode ser elaborada tanto do ponto de vista de uma Macro-História, que examina de um lugar mais distanciado aspectos como os movimentos sociais ou como a estratificação social de uma determinada realidade humana, como pode ser elaborada do ponto de vista de uma Micro-História, que se aproxima para enxergar de perto o cotidiano, as trajetórias individuais, as práticas que só são percebidas quando é examinado um determinado tipo de documentação em detalhe (por exemplo os inquéritos policiais, os documentos da Inquisição, mas também determinadas produções culturais do âmbito popular onde transpareçam elementos da vida cotidiana, das relações familiares, e assim por diante). As diferenças entre Macro-História e Micro-História ficarão mais claras no item relativo a este último tipo de abordagem.

Não há limitações com relação ao que pode ser tomado como ‘fonte’ para a História Social. É possível encontrá-las tanto na documentação de origem privada como na documentação oficial, por assim dizer. O que estamos chamando de documentação privada são aquelas fontes produzidas ao nível das vidas individuais: os relatos de viagem, os diários pessoais, correspondências entre particulares (sejam indivíduos ilustres, ou não). Documentação oficial ou pública existe de todos os tipos: desde aquelas que oferecem dados massivos sobre uma sociedade – como os inventários e registros fiscais, censitários, testamentários, cartoriais, e paroquiais – até aquelas mais pontuais, referentes a situações específicas. Por exemplo, um material muito rico do tipo que estamos caracterizando como pontual encontra-se nos arquivos judiciais e policiais (ou seja, na documentação oriunda dos sistemas repressivos). Os historiadores sociais da atualidade têm precisamente prestado muita atenção a um vasto manancial de fontes que por muito tempo foi esquecido: os registros de polícia, os processos criminais – incluindo os depoimentos, as confissões e as sentenças proferidas sobre determinado caso – ou ainda, para os primeiros séculos da Idade Moderna, os processos da Santa Inquisição, que costumavam rastrear obsessivamente a vida dos indivíduos investigados, anotar a sua fala nos mínimos detalhes, registrar rigorosamente os dados de sua vida cotidiana com o fito de perceber qualquer indício de comportamento anormal ou mentalidade herética.

É bastante irônico. Os indivíduos pertencentes às classes sociais privilegiadas dão-se a conhecer através dos mais diversificados tipos de fontes à disposição dos historiadores – na documentação política, falam através dos deputados e governantes que os representam; nas notícias de jornais, pode-se até mesmo percebê-los em flashes de sua vida privada nas colunas sociais; na arte letrada, iremos encontrá-los como sujeitos produtores de discurso ou como referentes dos discursos aí produzidos. Já ao pobre, e mais ainda ao excluído, só é dada uma voz quando ele comete um crime (ou quando é acusado de um). Os registros repressivos são paradoxalmente os espaços documentais mais “democráticos” – aqueles onde os historiadores poderão encontrar literalmente as vozes de todas as classes, mas sobretudo as dos indivíduos pertencentes aos grupos sociais menos privilegiados do ponto de vista político e econômico. É só quando comete um crime que o homem pobre adquire uma identidade para a História!

Existem também, é preciso reconhecer, as fontes oriundas da cultura popular. Mas este tipo de fonte é mais propriamente relacionado com a História Cultural, como já vimos anteriormente. Também não deve ser desprezada a grande literatura. A leitura atenta da Comédia Humana de Balzac não é irrelevante para a compreensão da transição para o Capitalismo moderno, e a mesma recomendação de atentar para a importância da literatura como fonte para este período pode ser feita em relação às obras de Victor Hugo. A partir do momento em que a perspectiva realista abriu-se como uma possibilidade para os produtores de obras associadas à cultura letrada (literatura, mas também artes visuais), o homem comum também começou a chegar aos historiadores através destas fontes, embora elas sempre requeiram o cuidado de serem trabalhadas com a consciência de que, nestes casos, o homem pertencente aos extratos sociais menos privilegiados só recebe a sua voz ou a sua transparência através de um filtro, que é a sensibilidade do escritor ou do pintor pertencente a outro grupo social (fora, é claro, quando o próprio artista é oriundo do grupo social que pretende retratar).

Voltemos às fontes de História Social que chegam aos historiadores através da violência. Além da violência individual, que aparece através do crime, existe ainda a violência coletiva, onde a massa anônima deixa suas marcas e conquista também a sua voz através de explosões de revolta que podem ficar registradas nas notícias de jornais, ou então nas descrições dos cronistas para os períodos mais antigos. As revoluções e os processos de transformação social, conforme já observou Thompson muito bem, são momentos privilegiados para a percepção das identidades de classe, inclusive as relativas aos grupos sociais menos privilegiados. São nestes momentos que as massas tornam-se visíveis, exprimindo-se através dos gestos do “protesto” (sejam protestos espontâneos, sejam os movimentos organizados, como as greves) ou da violência coletiva, que podem produzir desde badernas e motins até revoluções com repercussões sociais definitivas. São também nestes momentos que, eventualmente, emergem as lideranças populares – por vezes deixando suas vozes registradas em panfletos e em discursos que foram recolhidos pela imprensa ou pelos cronistas de uma época.

No dia a dia, as massas populares são informes: executam como que emudecidas as tarefas que lhes permitirão assegurar a sua sobrevivência diária. A História conhece os camponeses do final da Idade Média, os operários urbanos das sociedades industriais, os escravos do Brasil Colonial ... sempre através dos registros massivos, que anotarão as datas de seus nascimentos, o número de filhos, a morte, a ocupação, e as modalidades de pertencimento (a um senhorio na Idade Média ou a uma indústria no mundo capitalista). Nestes momentos, as massas falam à História através de números que registram a sua laboriosa e sofrida passividade. Mas quando ocorre um motim, uma insurreição, um protesto público, pela primeira vez a massa de despossuídos será ouvida não através da passividade dos números silenciosos, e sim através dos gestos violentos e ruidosos.

Os “sem-terra”, por exemplo, são habitualmente encontrados pelos historiadores que examinam a História contemporânea do Brasil nos documentos do censo, que os registram como camponeses despossuídos e desempregados. Mas quando eles ocupam uma fazenda, ou quando em protesto eles adentram um espaço que para eles não estaria previsto – como um shopping center – neste momento eles se transformam em atores sociais mais definidos e ganham espaço nas notícias de jornal e outras mídias. Quando a massa excitada derruba uma bastilha, entra subitamente na História não como uma estatística, mas como sujeito coletivo que realiza um ato, que produz ou se incorpora a um movimento social. Os camponeses medievais, de modo similar, chegam aos historiadores como um número incorporado à terra através dos contratos celebrados entre um suserano e um vassalo, ou através de um testamento que os passa adiante para os herdeiros de um feudo. Mas quando produzirem uma Jacquerie serão registrados pela primeira vez por algo que fizeram, e não por algo que fizeram a eles.

São os grandes momentos de protesto ou de violência coletiva que tornam visíveis as massas, e os pequenos momentos de crimes individuais que dão visibilidade ao homem comum. Por isto o historiador acaba chegando às massas e aos indivíduos menos favorecidos através da violência. São as fontes que expressam os vários tipos de violência (ou que registram a repressão a esta violência) aquelas que permitirão a este historiador examinar as relações de classe, as suas expectativas, o seu cotidiano. É aliás curioso observar que, quando o criminoso escapa à repressão, ele perde-se para a História.

Na verdade, as fontes de natureza repressiva – como os processos criminais ou os registros inquisitoriais – constituem registros múltiplos, polifônicos por excelência. A própria diversidade social pode estar presente em um processo judicial ou inquiridor – afinal, o modo como devem ser organizados os processos, entrecruzando indivíduos dos mais diversos tipos, acaba conferindo a este tipo de fontes uma posição muito rica no repertório de documentos à disposição de um historiador social. São fontes que habitualmente envolvem um foco representando o sistema repressivo (não raro expressando contradições internas que podem aparecer sob a forma de conflitos de autoridade) e um universo multifocal que passa por um vasto número de depoentes e de testemunhas, até chegar ao criminoso ou ao inquirido.
É mais raro que a História Social, pelo menos no que se refere a períodos mais recuados, vá encontrar fontes relativas aos grupos menos favorecidos na ‘documentação privada’ (diários, livros de memória, relatos de viagem, correspondência) porque estes tipos de textos nem sempre são conservados depois que os seus autores desaparecem. Mas, na medida em que avança para classes mais favorecidas, o historiador já começa a dispor deste tipo de documentação.
As fontes da História Social, enfim, são de inúmeras modalidades. Sua escolha, naturalmente, será orientada pelo problema histórico a ser definido e investigado pelo historiador.

Conforme vimos – seja no que se refere a seus campos de interesse e objetos privilegiados, seja no que se refere a seus métodos mais recorrentes e fontes historiográficas disponíveis – a História Social mostra-se ao historiador contemporâneo como um campo aberto a inúmeras possibilidades. Um de seus traços centrais, certamente, continuará para o futuro a referir-se ao intenso diálogo com todas as Ciências Sociais, o que tem permitido precisamente essa maior amplitude de objetos e o tratamento de uma maior variedade de tipos de fontes a partir de metodologias que a História pôde apreender de diversificados campos do saber como a Sociologia, a Antropologia, a Lingüística, a Semiótica.


Leia o artigo completo em http://ning.it/hszGnB

[BARROS, José D’Assunção. “A História Social: seus significados e seus caminhos” in LPH - Revista de História da Universidade Federal de Ouro Preto. N° 15, 2005; p.235-256].

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Micro-História

A Micro-História é um campo relativamente recente na Historiografia, e ainda hoje gera muitas po-lêmicas com relação às suas possibilidades de definição. Uma questão complicadora é que a Micro-História começou a desabrochar com um grupo muito específico de historiadores italianos, que possui, até os dias de hoje, publicação própria (os Quaderni Storici), e por isto não é raro que se confunda a Micro-História – enquanto nova possibilidade de abordagem historiográfica – com este grupo. Mas veremos a seguir que a Micro-História merece ser tratada de maneira mais ampla, como um novo âmbito de possibili-dades historiográficas, e não como uma corrente ou escola dentro da historiografia. O olhar micro-historiográfico, deve-se dizer, pode ser conectado aos mais distintos aportes teóricos, e é assim que ele tem aparecido inclusive na historiografia brasileira das últimas décadas.

Outra confusão sem nenhum fundamento que algumas vezes se faz surge quando se relaciona equi-vocadamente a História Regional e a Micro-História, apesar de estes serem campos radicalmente distintos no que concerne às suas motivações fundadoras. Vejamos a seguir, para diferenciá-la mais claramente da Micro História, do que se trata quando se fala em “História Regional”.

Quando um historiador se propõe a trabalhar dentro do âmbito da História Regional, ele mostra-se interessado em estudar diretamente uma região específica (ou, melhor dizendo, uma determinada espacia-lidade). O espaço regional, é importante destacar, não estará necessariamente associado a um recorte admi-nistrativo ou geográfico, podendo se referir a um recorte antropológico, a um recorte cultural ou a qualquer outro recorte proposto pelo historiador de acordo com o problema histórico que irá examinar. Mas, de qualquer modo, o interesse central do historiador regional é estudar especificamente este espaço, ou as relações sociais que se estabelecem dentro deste espaço, mesmo que eventualmente pretenda compará-lo com outros espaços similares ou examinar em algum momento de sua pesquisa a inserção do espaço regio-nal em um universo maior (o espaço nacional, uma rede comercial).

Que a região é uma construção do historiador, do geógrafo ou do cientista social que examina uma determinada questão, isto já o sabem de longa monta os historiadores regionais. A região não existe obvi-amente como espaço pré-estabelecido, ela é construída dentro das coordenadas de uma determinada pes-quisa ou de uma certa análise sociológica ou historiográfica. Por isto, aliás, é preciso que o pesquisador – ao delimitar o seu espaço de investigação e defini-lo como uma ‘região’ – esclareça os critérios que o con-duziram a esta delimitação. Posto isto, é óbvio que o ‘espaço’, seja este definido como espaço físico ou como espaço social, é uma noção fundamental dentro deste campo de estudos que pode ser enquadrado como História Regional.

Enquanto a História Regional corresponde a um domínio ou a uma abordagem historiográfica que foi se constituindo em torno da idéia de construir um espaço de observação sobre o qual se torna possível perceber determinadas articulações e homogeneidades sociais (e a recorrência de determinadas contradi-ções sociais, obviamente), já a Micro-História corresponde a um campo histórico que se refere a uma coisa bem distinta: a uma determinada maneira de se aproximar de uma certa realidade social ou de construir o objeto historiográfico. A Micro-História, sustentaremos aqui, relaciona-se a uma abordagem, mais do que a qualquer outra coisa.

Antes de mais nada é preciso deixar claro que a Micro-História não se refere necessariamente ao estudo de um espaço físico reduzido ou delimitado, embora isto possa até ocorrer. O que a Micro-História pretende é uma redução na escala de observação do historiador com o intuito de se perceber aspectos que, de outro modo, passariam desapercebidos. Quando um micro-historiador estuda uma pequena comunidade, ele não estuda propriamente a pequena comunidade, mas estuda através da pequena comunidade (não é por exemplo a perspectiva da História Local, que busca o estudo da realidade micro-localizada por ela mesma). A comunidade examinada pela Micro-História pode aparecer, por exemplo, como um meio para se atingir a compreensão de aspectos específicos relativos a uma sociedade mais ampla. Da mesma forma, pode-se tomar para estudo uma ‘realidade micro’ com o intuito de compreender certos aspectos de um pro-cesso de centralização estatal que, em um exame encaminhado do ponto de vista da macro-história, passa-riam certamente desapercebidos.

O objeto de estudo do micro-historiador não precisa ser, desta maneira, o espaço micro-recortado. Pode ser uma prática social específica, a trajetória de determinados atores sociais, um núcleo de represen-tações, uma ocorrência (por exemplo, um crime) ou qualquer outro aspecto que o historiador considere revelador em relação aos problemas sociais ou culturais que está disposto a examinar. Se ele elabora a bio-grafia ou a “história de vida” de um indivíduo (e freqüentemente escolherá um indivíduo anônimo) o que o estará interessando não é propriamente biografar este indivíduo, mas sim os aspectos que poderá perceber através do exame micro-localizado desta vida.

Da mesma maneira, assim como a Micro-História não deve ser confundida com a História Regional ao examinar eventualmente um espaço micro-recortado, também não deve ser confundida com o chamado ‘estudo de caso’ ao estudar uma prática social ou uma ocorrência, e nem ser confundida com a Biografia Histórica ao examinar uma “vida” ou uma trajetória individual. Sempre que toma estes objetos – micro-localidade, prática social, ocorrência histórica, trajetórias individuais entrecruzadas ou vida individual – o micro-historiador está no encalço de algo mais do que estes objetos em si mesmos. A prática micro-historiográfica não deve ser definida propriamente pelo que se vê, mas pelo modo como se vê.

Para utilizar uma metáfora conhecida, a Micro-História propõe a utilização do microscópio ao in-vés do telescópio. Não se trata, neste caso, de depreciar o segundo em relação ao primeiro. O que importa é ter consciência de que cada um destes instrumentos pode se mostrar mais apropriado para conduzir à per-cepção de certos aspectos do universo (por exemplo, o espaço sideral ou o espaço intra-atômico). De igual maneira, a Micro-História procura enxergar aquilo que escapa à Macro-História tradicional, empreendendo para tal uma ‘redução da escala de observação’ que não poupa os detalhes e que investe no exame intensi-vo de uma documentação. Considerando os exemplos antes citados, o que importa para a Micro-História não é tanto a ‘unidade de observação’, mas a ‘escala de observação’ utilizada pelo historiador, o modo intensivo como ele observa, e o que ele observa.

A idéia de que, em muitos casos, a Micro-História examina um campo ou um aspecto reduzido para enxergar mais longe, ou para perceber elementos que escapariam à macro-perspectiva tradicional, merece alguns esclarecimentos adicionais. Poderíamos utilizar aqui uma nova metáfora: a de que o micro-historiador examina “uma gota d’água para enxergar algo do oceano inteiro”, contanto que tenhamos uma compreensão muito precisa sobre que esta imagem significa. Suponhamos um oceanógrafo que estivesse investindo em uma possibilidade como esta. Ele se propôs a buscar compreender algo do oceano inteiro a partir de uma minúscula gota d’água extraída deste oceano – será isto possível? A resposta depende obvi-amente do problema científico que se pretende examinar. Não é possível compreender a fauna marítima examinando uma simples gota do oceano (um peixe não cabe em uma gota d’água). Mas é possível estudar a composição molecular da água a partir de qualquer gota (com exceção, talvez, das gotas extraídas de áreas que sofreram vazamentos de óleo nos acidentes ecológicos que ocasionalmente têm perturbado os noticiários recentes). Não está sendo defendida aqui nenhuma proposta de que este macrocosmos que é o oceano está essencialmente contido neste microcosmos que é a gota d’água, ou de que a sociedade inteira está contida em cada um dos seus fragmentos passíveis de serem examinados. Também não se trata de dizer que a micro-análise seleciona um fragmento para amostra (algumas gotas do oceano, por exemplo), para depois proceder a uma generalização das observações com o fito de concluir que o que aconteceu a uma ou mais gotas d’água acontecerá a todas que compõem o oceano (o que seria o método empírico-indutivo tradicional). Na verdade, a Micro-História não trabalha propriamente com generalizações deste tipo. Pelo contrário, as motivações que produziram este novo tipo de abordagem historiográfica são até mesmo um pouco avessas seja às grandes generalizações (tão típicas das antigas utopias historiográficas da “história total”), seja à idéia de que a gota contém o oceano ou de que o fragmento social contém a socie-dade). De que se trata então?



Leia a continuação deste texto em:

O presente texto também se encontra, em outra versão, em um dos capítulos do meu livro "O Campo da História" (BARROS, José D'Assunção. O Campo da História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, 8a edição).

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Outras referências bibliográficas:

BARROS, José D'Assunção. "Micro-História" in O Campo da História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, 8a edição. p.152-179.

BARROS, José D'Assunção. "O olhar micro-historiográfico no Brasil". Revista do IHGB, a-165, n°424, jul/set. 2004.

GINZBURG,Carlo. “O inquisidor como antropólogo” In A Micro História e outros ensaios. Lisboa: DIFEL, 1991 [original: 1989]

GINZBURG, Carlo. “Sinais: raízes de um paradigma indiciário” In Mitos, Emblemas, Sinais, São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p.143-179

GINZBURG,Carlo. O Queijo e os Vermes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987 [original: 1975]

LEVI, Giovanni. "Sobre a Micro-História" in BURKE,Peter (org.) A Escrita da História - novas perspectivas. São Paulo: Unesp. 1992. p.133-161.

LIMA, Henrique Espada. A Micro-História Italiana - escalas, indícios e singularidades. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

PESAVENTO, Sandra. “Esta história que chamam micro” In: Questões de teoria e metodologia da história. Porto Alegre: Edurgs, 2000, p. 228-229.

REVEL, Jacques (olrg.). Jogos de Escala - a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1998.